Dislexia
A dislexia é um transtorno específico da aprendizagem, de origem neurológica, caracterizado pela dificuldade em aquisição de leitura básica, como por exemplo dificuldade em precisão e fluência de leitura, velocidade e/ou compreensão, e dificuldade de soletrar.
Esta dificuldade resulta de um déficit do componente fonológico de linguagem, que não tenha correlação com habilidades cognitivas (inteligência), ou falha no processo educacional.
A prevalência do transtorno de aprendizagem com dificuldade de leitura é variável, estimada entre 5-17.5%. Pode ocorrer em todas as classes sociais.
Estima-se que aproximadamente 30-60% das crianças com dislexia possuem um dos pais com a condição. Portanto, uma forma de estimar a chance de uma criança ser disléxica é testar os pais. Faça o autoteste abaixo para estimar sua possibilidade de ser disléxico. É importante ressaltar que o teste é de rastreio, e não diagnóstico, em caso de dúvidas, procure um especialista para avaliação formal.
A dislexia é uma condição de importante relevância clínica, uma vez que a aquisição de leitura está diretamente associada à aquisição de vocabulário e de conhecimento, as quais podem limitar desempenho acadêmico e profissional dos indivíduos quando não recebem o adequado manejo precoce.
Para o diagnóstico de dislexia, é importante descartar que existam condições que mascarem a dificuldade de leitura, tais como:
. dificuldade auditiva
. dificuldade de visão
. ambiente educacional empobrecido (pouca exposição a livros e leitura, técnicas de ensino inadequadas, faltas excessivas escolares)
. deficiência intelectual ( QI abaixo ou na média inferior entre 70-89)
. outras doenças neurológicas ( sequelas de AVC, de TCE, meninigite…)
. disfunção familiar e diversidades sociais ( separação dos pais, abuso ou negligência, pobreza)
. depressão, ansiedade, baixa auto-estima, …
Existem 6 genes fortemente candidatos à dislexia ( DYX1C1, DCDC2, KIAA0319, C2OrF3, MRPL19, e ROBO1), porém até o momento não dispomos de aplicação clínica desta investigação.
A apresentação dos sintomas variará de acordo com a idade da criança, e sua habilidade em compensar esta dificuldade de leitura. O diagnóstico precoce propicia a possibilidade de intervenção precoce, e consequentemente otimização de terapias cognitivas, a fim de que, a criança obtenha melhor desfecho e menor prejuízo educacional e socioeconômicos futuros.
Sintomas infantis de alerta para dislexia de acordo com a faixa etária: ( retirado ipsis litteris de Fusão et al referência 3)
Pré-escolares:
Falta de interesse em jogos com sons da língua ( p.ex.: repetições e rimas)
Dificuldades em aprender cantigas infantis com rimas, como atirei o pau no gato"e " ciranda cirandinha"
Persistir com pronúncia de palavras erradas (falar como bebês)
Dificuldade em aprender e lembrar nomes de letras
Não saber reconhecer as letras do próprio nome
Jardim de infância e primeiros anos de alfabetização:
Incapacidade em reconhecer e escrever as letras
Não reconhecer ou escrever o próprio nome
Dificuldade em reconhecer fonemas semelhantes (p.ex.: qual, em um conjunto de palavras - casa, bolo, gato, inicia com o mesmo som de "garrafa"
Queixas de quão difícil é ler ou esconde-se e inventa desculpas na hora de ler
História familiar positiva para dificuldade em ler
Ensino fundamental:
Dificuldade em decodificar as palavras com fluência, ortografar
Leitura em voz alta lenta, imprecisa e trabalhosa
Má pronúncia ou omissão de parte das palavras ( p. ex.: "convido"ao invés de convidado, e " aminal "ao invés de " animal ", bem como confundir palavras com sons semelhantes (p.ex.: combustível x comestível)
Auto-teste de rastreio para dislexia em adultos:
Você lê de maneira lenta?
Você teve dificuldade para aprender a ler na escola?
Frequentemente precisa ler algo 2-3 vezes para que a sentença faça sentido?
Você fica desconfortável em ler em voz alta?
Você omite, transpõe ou acrescenta letras quando está escrevendo ou lendo?
Você acha que ainda tem erros ortográficos em sua escrita, mesmo após a verificação ortográfica?
Você acha difícil pronunciar palavras extensas pouco utilizadas no dia-a-dia quando está lendo?
Você escolhe ler revistas ou artigos pequenos, ao invés de livros extensos ou romances?
Quando você estava na escola, achou extremamente difícil aprender uma língua estrangeira?
Você evita trabalhar em projetos ou cursos que demandem leitura de textos longos?
A presença de 7 ou mais respostas positivas às perguntas podem indicar dislexia. Procure auxílio profissional para interpretação dos dados.
O manejo clínico pode ser realizado com adaptações de atividades escolares, e de avaliações (provas), apoio psicopedagógico específico. O treinamento psicopedagógico objetiva ensinar a criança a diferença entre as palavras e o sons das letras; a diferença entre palavras e partes das palavras - como são escritas e como são lidas; como separar sílabas e como unir sílabas. Pode ser sugerido em alguns casos, oferecimento de tempo extra para realização de atividades e provas.
Como os pais podem auxiliar em casa? Estimulando a leitura em voz alta; suporte emocional com reforço positivo acerca do esforço da criança e explicando que sua dificuldade não é preguiça ou falta de dedicação e sim explicado por uma dificuldade biológica de processamento neurológico.
Referências:
Reading difficulty in children: Clinical features and evaluation. S Sutton Hamilton, et al. UpToDate, 2022.
Fusão EF, Wanjnstejn AC e Wajnsztejn R. Transtornos Específicos da Aprendizagem. Neurologia Infantil Fundamentos e Prática Clínica, Vol. 1, Capítulo 29, 2023.